Textos Folder - Juliano Pessanha e Sergio Fingermann (Pinacoteca)

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A pintura de Sergio Fingermann é atravessada por uma ambigüidade, pois nela coexistem a pintura narrativa e a pintura pictórica. Ora olha-se a figura, ora olha-se a pintura. Essa movimentação impede a captura e a sedução da imagem narrativa. A excelência do pintor nos devolve ao presente em que percebemos que se trata do fazer de alguém, de um fazer pintura.


Quando olhamos para a figura vemos que Sergio nos mostra ausências: a música não está mais lá, as pessoas em torno da mesa não estão mais lá, a dança, o jogo, a festa e tantas outras coisas, que um dia estiveram, agora não mais estão.


A pintura de Sergio é haurida na perplexidade, pois ela testemunha a extinção das coisas, e é na coisa que se ergue a chance do lar na terra.
 

Se hoje não há mais pintura de coisas que se ausentam, se hoje, na aceleração da cultura de urgência, estamos todos em alerta e em stand-by, onde então a promessa de lar? Nessa pergunta difícil reside o núcleo espiritual dessa pintura: não mais pintura de expansão e de experimentação modernas, mas de retração e de retorno à casa.


Ser sustentado no sentimento do mundo em extinção é o privilégio de Sergio Fingermann. Sua pintura é um gesto amoroso que guarda duração e memória num tempo de aniquilação e apagamento da província humana.


Juliano Garcia Pessanha

O pintor espanta-se:


- Como é possível?
- Como pode?
- Quem faz a Pintura acontecer?


Há um poder silencioso na Pintura:


- Que voz narra os sonhos, as memórias que se acumulam em imagens?
- Como a soma de tudo isso se faz em saber?


A pintura está ali.

Aparece, emerge e se faz ver.

Pinturas são construídas como segredos.

Nós somos seus destinatários.

O fim da Pintura é sua própria beleza.

Beleza essencialmente desconcertante.


A Pintura guarda o instante da aparição e da surpresa.

Faz as coisas regressarem de sua ausência, de seu esquecimento.


O que se vê numa pintura é esse caminho.

Esse regresso de lá até o nosso espanto.

A imagem se faz nesse percurso.

Em silêncio.


Sergio Fingermann