Sergio Fingermann - Fernando Paixão
Que palavras debruçar sobre as imagens e os textos de Sergio Fingermann? A pergunta fica ressoando naturalmente depois de visitar o seu estúdio, ou passear junto às paredes em que aprecem as obras. Deparamos com recortes que se propõem visuais, mas também são frestas insistindo na confluência entre pensar e sentir. Dualidade que desafia o artista para se realizar a um só tempo, num só gesto.
Fingerman é dado a essa atenção reflexiva que produz a convivência de pensamento e imagem. Mais ainda: desde a origem ele mantém compromisso com a atitude poética enquanto fonte geradora de significação capaz de urdir e configurar seus temas e dilemas. Motivado por essa inclinação, ele se ocupa em criar cenas instigantes e delicadas para os nossos olhos. Imagens que nos tornam pensativos.
Já temos a primeira palavra, portanto: delicadeza.
O resultado, por isso mesmo, acaba por revelar expressiva simplicidade. De modo voluntário seus trabalhos propõem uma metafísica sutil, pautada por uma série de elementos carregados de sentido e circunstância. Muitos dos quadros se concentram em torno a um enigma simbólico, digamos, cujas partes convidam à decifração.
É quando deparamos com espaços largos e despojados, colunas e arcos, árvores, silhuetas e azulejos – peças de um jogo encenado com o intuito de despertar uma desejada visita à poesia.
Temos, assim, um pintor que verseja com o pincel.
Pode-se inclusive entender esse caminho como que manifestando certa dose de recusa à própria pintura, sobretudo quando associada à intensidade da cor ou ao formalismo. Não interessa ao artista, atento que é com as outras artes, ficar circunscrito ao pictórico puro, sensorial. Não lhe interessa o assalto dos sentidos de quem o observa, nem anseia por despertar algum clarão. Não.
Em verdade, muitas de suas cenas transcorrem em tom temperado, e com freqüência em meio a uma atmosfera de penumbra. Sugerem marcas ligadas à passagem do tempo… e para bem se perceber a tonalidade moderada de cada área ou detalhe, faz-se mesmo necessária uma atenção suplementar.
É como se ele se envolvesse numa escolha de signos capazes de propor uma espacialidade poética, ligada aos sentimentos primeiros e primordiais – isso é o que a ele interessa.
Como segunda palavra, então, fiquemos com esta: cartografia.
Mas há ainda as palavras do artista, em depoimento. No caso de Fingermann, ele se ocupa delas duplamente. De um lado, aparecem estampadas na tela, por exemplo, dizendo sobre a água que extravasa na taça, e em tantos outros momentos. Sugerem um sabor de metalinguagem, pois a palavra, quando pintada, é uma palavra que se pensa enquanto forma.
Outras vezes, delas se nutre para alinhavar com sinceridade as pautas de sua busca e aprendizado estético. Embora os escritos sejam em versos, invocando semelhança com a composição poética, também aqui não se tem a poesia por objetivo, enquanto arte pura. Inversamente, agora é o pintor que escreve, mas ambicionando a expressão de uma verdade pessoal e artística, mais que o efeito lírico.
Tanto num caso como no outro, letras e frases acontecem inspiradas por um desejo de autenticidade, aceitando as imperfeições, o lance ocasional ou a soma de sinais observada livremente. O que importa de fato está associado a uma convivência com valores essenciais. Envolvidas nesse intento, palavras e imagens reforçam-se mutuamente e amplificam a qualidade das cores e do desenho. Dão o que pensar.
Mulheres dançando, cones e cubos, arabescos, passos à frente e atrás, tabuleiros, molduras e círculos – tudo contribui para formar o pequeno teatro de flagrantes e nexos, encontros e dramas que o pintor-poeta nos entrega. Funcionam como simulacros dos nossos movimentos cotidianos mais recônditos – por isso não há como ficar indiferente a eles—, mas tratados com leveza e conduzidos sob a arte de mãos delicadas.
E a terceira palavra acaba por descer sobre o papel: correspondências.
Fernando Paixão
