Para ver e pensar - Antonio De Franceschi (2001)
Não é tão freqüente na tradição brasileira pintores escreverem sobre questões teóricas. Muito menos quando essas questões avançam do estrito terreno da arte para a filosofia. A Sergio Fingermann não bastou o extenuante preparo de três exposições sucessivas que se exibem a partir de setembro de 2001, a primeira no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro (e a seguir nos demais centros culturais da instituição), a Segunda na Pinacoteca de São Paulo e a terceira na Galeria do IMS no Arteplex paulistano. Lançou, simultaneamente, o livro Fragmentos de um dia extenso, uma espécie de súmula, em registro poético, das reflexões do artista sobre a pintura. Ambos se complementam. O livro comenta as exposições e estas oferecem o contexto para as questões levantadas. Recomenda-se, portanto, que o texto e as pinturas, se é possível, sejam visitados juntos.
O livro passa ao largo da questão do estatuto da arte, cuja discussão marcou a Geração de 70, a que Fingermann cronologicamente pertence. O artista prefere refletir sobre “a arte como processo”, voltando suas indagações para os mistérios do próprio ofício. A questão central é saber “em que sentido a experiência de olhar, na elaboração da percepção, nos aproxima da essência do homem?” Ato superior da percepção, a pintura – como a literatura e a música – é uma das pontes para esse conhecimento extremo.
Para Fingermann, a imagem – matéria prima da pintura – tem o poder hermenêutico de traduzir o mundo, cabendo ao artista, com sua obra, transformar essa sabedoria em linguagem e com ela construir uma poética. Mas a imagem é só o artifício que o artista usa para “fisgar” o espectador e aí conduzi-lo a um outro lugar, “que é a fascinação”. Entenda-se bem: fascínio é o nome da própria experiência de fruição estética da obra de arte e da abordagem dos inumeráveis mundos contidos nela. Reunindo trabalhos antigos e recentes – pinturas sobre tela e obras sobre papel -, embora sem qualquer pretensão retrospectiva, as exposições e o livro de Sergio Fingermann proporcionam um compreensivo e revelador vislumbre da trajetória do artista. Como também a chance de se conferir com a presente mostra, num teste à sensibilidade de cada um, a instigante proposta estética por ele formulada.
Antonio Fernando de Franceschi
(Catálogo da exposição “Sergio Fingermann – pinturas e obras sobre papel” no Instituto Moreira Salles – set/2001)
