O Essencial e a Ética - Len Berg (1991)

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As dezoito pinturas apresentadas pelo paulistano Sergio Fingermann na Galeria São Paulo (São Paulo, maio/junho) não constituem uma ruptura em seu trabalho. Ao contrário, realizadas em grandes dimensões, em óleo sobre tela, revelam a mesma preocupação para com a linguagem da pintura e com o exercício da liberdade de criar que o caracteriza.


Elas ocorrem sem prévio planejamento, desenvolvem-se por si e se estruturam a partir do ato de pintar. Isto equivale a dizer que as imagens presentes até há pouco em suas telas desapareceram. Resistem elementos residuais, sobretudo linhas que se impõem como fator de estruturação da pintura. O branco se expande sobre bom número dos trabalhos atuais, enfatizando-se como cor, com a função de levantar e fazer pulsar outras cores que foram quase inteiramente encobertas no processo da pintura.


São trabalhos abstratos, à exceção de Avignon, Avignon, frágil película de uma paisagem da cidade francesa onde vivem alguns de seus familiares, e uma obra sem título, vermelha, clara alusão a um edifício como os presentes nos recortes /cenários mostrados há dois anos na Galeria Luisa Strina, também em São Paulo.


A abstração no sentido histórico do termo, no entanto, só se associa à de Fingermann enquanto busca do essencial na pintura. Certo de que não subsiste espaço para vanguardas, ele crê que o artista deve se situar em relação à história da arte e, por meio de sua marca pessoal, insistir no desvelamento do novo, além de seus próprios limites. Em sua produção atual “marca pessoal” e “novo” se traduzem por obras destituídas da linguagem narrativa, sem temática que não a própria arte e o processo de sua construção.


Dessa forma, a intenção na pintura não é significar algo, mas conter em sua natureza uma ética, valores que se plantam acima de qualquer referência pessoal do artista. Ao espectador, privado da narrativa, cabe fazer a leitura da operação pintura. Se não há redenção através da arte, pondera Fingermann, há sua problematização e vontade do artista de dar “forma ao vazio, embora saiba que não vá preenchê-lo”.


Anteriormente a pintura ficava presa à representação do real, que se sobrepunha ao aspecto plástico. Havia uma clara questão estrutural que não impedia que Fingermann articulasse sua pintura. Cenários, objetos do cotidiano, da natureza, cidades, edifícios eram mantidos por linhas de tensão num “universo de evocações misteriosas, de justaposições e estranhezas, de choques de escala, de enigmáticos conjuntos instigantes e insólitos”, no dizer do crítico Olívio Tavares de Araújo ao analisar sua produção gráfica.


Fingermann é pintor (a pintura foi a primeira técnica a que se entregou, em 74), e gravador e trabalha as duas mídias ao mesmo tempo, intercambiando soluções formais. Na opinião de Olívio, ele é “até mais gravador do que pintor”, pois é na sua pintura que percebe “uma densidade cromática e um tipo de tratamento da luz que me parece provir dos campos de contraste e claro-escuros específicos das linguagens gravadas”.


A pintura transferiu-se porém para o território não representacional e esse parentesco diluiu-se. Acidentalmente, agora são suas grandes telas que detonam a investigação gráfica, que passa a se dar também em dimensões maiores.


Em 86 Fingermann realizou mostras simultâneas de gravuras em Porto Alegre (Galeria Tina Zappoli), Rio de Janeiro (Estampa) e São Paulo (Galeria Luisa Strina), introduzindo sua safra de obras únicas a partir do procedimento da gravura, um múltiplo por excelência. Ele expôs 120 trabalhos, originados de matrizes gravadas e impressas. Em nenhum deles, no entanto, as imagens eram idênticas, uma vez que sobrepunha matrizes, em etapas distintas da gravação, além de aplicar-lhes papel japonês colorido.


A gravura como múltiplo não o interessa mais e são suas obras únicas gravadas sua retaguarda para o trabalho que já desenvolve no mercado internacional: a seu ver, ao buscar esse mercado um artista não deve comparecer apenas com um tipo de trabalho, como a pintura. A gravura, de acesso mais fácil ao público em função dos preços praticados no mercado, têm função de pavimentar o caminho e disseminar o trabalho do artista. Foi por isso que por meio do marchand Fred Dorfman, de Nova York, tocou o mercado norte-americano, onde já vendeu dezenas delas. Será da mesma forma que introduzirá sua obra na França, onde tem exposição de pinturas marcada para dezembro deste ano, na Galeria de Arte Contemporânea Saint-Ravy Demangel, em Montpellier.


Len Berg
Guia das Artes Nº 19