Na contramão da tecnologia - Luiz Camilo Osório (JB - 18-10-2001)

voltar

Luiz Camilo Osório


Qualquer exposição que aconteça no Instituto Moreira Salles, na Gávea, será necessariamente envolvida pela casa. Tudo ali é correto e encantador : as escalas da construção, os detalhes decorativos, o jardim, o capricho na preparação das galerias. Ao pé da favela Parque da Cidade, um Brasil esquecido, moderno, que soube sonhar um futuro, não obstante suas mazelas e contradições, ainda se faz presente. Uma certa nostalgia do que poderíamos ter sido assola o visitante. E uma pergunta surge: ainda temos algum projeto de futuro?


Pergunta parecida vem à tona diante das pinturas do paulista Sergio Fingermann – cuja exposição encontra-se no instituto - , e também ao folhear seu belíssimo livro, recém lançado pela Editora BEI,  Fragmentos de um dia extenso. Qual o futuro da pintura? Ainda há algum caminho possível para a existência da pintura, para o olhar reticente e contemplativo que ela exige? Como recuperar o silêncio que a envolve se por todo lado as imagens nos chegam aos berros, se a nossa visualidade cotidiana está perpassada de ruídos? Como pintar sem ser incondicionalmente nostálgico?


Trabalhos referenciais – A trajetória de Fingermann começa no final dos anos 70. Desse início ele nos mostra algumas gravuras na primeira sala, escolhidas em função de se poder perceber ali um repertório de formas que se repetirão continuamente. É bom frisar que não se trata de uma exposição retrospectiva – que acontecerá no final do mês na Pinacoteca de São Paulo -, mas de uma apresentação de pinturas recentes, pontuadas por trabalhos referenciais do início da carreira.
Apesar de ter havido uma passagem da figuração para a abstração, há uma mesma perplexidade, que o acompanha nessas décadas, relativa ao instante de formação das imagens na superfície da tela. Este momento em que os gestos e manchas começam a formar algum signo visual, é um momento de hesitação, de possibilidades e de incertezas. As pinturas de Fingermann parecem querer dilatar esse momento hesitante, torná-lo o mais essencial da experiência pictórica em uma época de produção acelerada das imagens.


Daí provém o tal sentimento nostálgico, uma vontade de resgatar, seja através de uma incisão mais marcada ou de uma sugestão cromática qualquer , um tempo mais humano e menos tecnológico para o olhar, Será que ainda é possível resistir ao tempo da tecnologia? Será que essa nostalgia de um tempo perdido é uma tonalidade afetiva capaz de abrir um futuro para a pintura? São perguntas recorrentes, que não excluem a necessidade e o prazer da experiência pictórica.
Klee e Chagall – Quanto mais se explicita o fazer-se da pintura e menos se revela uma imagem pronta, melhor para essas telas, mais o olhar se deixa envolver no tempo dilatado da percepção. As pinturas abstratas de Fingermann mostram-se mais sedutoras e enigmáticas. Dois artistas surgem com freqüência na nossa memória quando passeamos pelas salas: Klee e Chagall. O diálogo com o primeiro – onde a pintura se concentra na matéria, na sua fatura e não na experiência subjetiva do artista – é mais interessante para sua obra. Falando dos nossos artistas, quem volta e meia ronda as salas e Daniel Senise.


A exposição é completa – e a nossa relação com a obra se intensifica – quando tomamos contato com o seu livro. Imagens e texto complementam-se. Trata-se do próprio artista se perguntando e refletindo sobre o que significa a pintura, o pintar. “Tento compreender aquilo que faço e, ao mesmo tempo, não penso que isso seja o mais importante. Às vezes, a dúvida é necessária; outras vezes a afirmação é mais importante. A suavidade de sua escrita coincide com o temperamento da obra , mostrando-se, portanto, parte constitutiva de sua poética. A visita ao instituto e a leitura do livro são bastante prazerosas.