Inquietações - Leopoldo Nosek (1986)

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Narciso olha a fonte e não se diferencia de seu reflexo. A ausência de movimento será sua morte: desconhecendo a si mesmo, Narciso se perde. Necessita que um sopro se faça sobre a água para que, criada a descontinuidade, imagens que apenas aguardavam um olhar se revelem. Surge a vida.


Entre a morte e a dor, o sonho. Entre Narciso e as imagens, a inquietação – ponte entre o desejo e sua desilusão, permissão para que o desencontro sustente o real. Manutenção de um compromisso que se estabelece sob a marca criativa de uma destruição controlada. Sonhando, Narciso pode prosseguir apesar da impossibilidade de se reunir ao seu reflexo.


Quem capta as tempestades e as transforma em inquietação? Precisamos do sonho do outro, de um sonhar anterior ao nosso, que tome a falta, o desejo possíveis. Existindo a brisa, podemos nos inquietar. Quando em nós a fonte se move, podemos encarar o real: imagens que apenas aguardam um olhar para existir.


Estamos nos situando dentro de uma tradição onde a estrutura estética é expressão de uma realidade.


O que vemos no trabalho de Sergio não é a problematização da imagem, mas da sua construção. Não a pintura, mas o pintar. Não o sonho, mas o sonhar, o espírito em seu trabalho. O real inclui não somente as imagens e Narciso, mas a fonte e o movimento. Podemos deter-nos sobre o pensar, sobre a criação e a permanência da inquietação. Sonhar é pré-condição para o real; na loucura, não existe sonho.


Essa postura é antagônica a uma outra onde sonho e pensamento se contrapõem, pois concebe que somente ao nos afastarmos do método, da racionalidade, o real poderia ser vislumbrado. Mas que, por isso mesmo, nos legou uma espécie de retrato do sonho, um naturalismo noturno, levando a uma apologia da irracionalidade. Esquecido ficou que o sonho tem seu método.
Assim, o trabalho de Sergio situa-se dentro de uma tradição racionalista, onde se recupera, numa atitude militante, a importância do pensar. Seu trabalho é tese. A estrutura estética mantendo a inquietação viva, refletindo-se sobre o espectador.


Na visão, impactos: a singularidade das imagens e o conjunto da exposição. Inquietação torna-se beleza, talvez pelo prazer de se ver um espírito trabalhando, reconhecido através da mobilização da nossa própria capacidade. A fonte no trabalho de Sergio, sustentando seu sopro, funciona como brisa sobre nós, permitindo o prazer do movimento do nosso espírito. Talvez seja confortável denominar esta paisagem de beleza.


Um texto discursivo não recupera a reflexão no campo das imagens, mas seria interessante comentar que a duplicidade sopro e fonte, inquietação e sonho, artista e espectador têm um pressuposto técnico onde a fixidez da gravura capta e permite o trabalho com o papel. Dessa forma, um elemento acolhe o outro, e se problematizam mutuamente, e desse conflito surge o novo; a contradição mantida cria o humor.


No trabalho atual de Sergio, podemos observar uma impossibilidade interna: a repetição de imagens, a cópia. Casa estampa é única, assim como cada olhar para ela.


Caminhemos pelo espaço das imagens, e talvez para cada um de nós surja a projeção de uma brisa; possibilidade para que nosso olhar mantenha uma suave inquietação.

Precisamos do artista.


LEOPOLDO NOSEK
Agosto 1986.