Idéias Poéticas - Vera d'Horta (1988)

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A tela em branco, o branco de uma folha de papel. O tempo pára diante da superfície alva que encara o pintor, o desenhista, o escritor. Esse cândido enigma o espera e o rejeita, é a confirmação de sua ausência. Marcar com um gesto essa imaculada superfície significa romper um obstáculo, entrar numa dimensão desconhecida, criar. De um modo emocional, subjacente, inconsciente, vai surgir alguma coisa nova.


As onze telas de Sérgio Fingermann reproduzidas neste catálogo são o resultado de um ano de trabalho. Quem vem acompanhando o seu percurso sensível e extremamente pessoal, em gravura, em pintura, talvez se surpreenda com a mudança de sua paisagem pictórica. Ele prescinde agora dos objetos da vida cotidiana com significação existencial, e dos prédios da cidade de São Paulo que trouxe para sua pintura nestes últimos dois anos. Sua visão agora vai mais longe, e ele descobre fachadas imaginárias, que já não derivam do Museu do Ipiranga, mas que poderiam ser da Itália, da Provence… de outro lugar, de um outro tempo.


Sérgio Fingermann reduz intuitivamente a dramaticidade do salto para o novo, com um artifício. Ele não se armou de um projeto, antes buscou o estímulo da novidade. Esse estímulo pode ser dado pela forma exterior do chassis – que ele improvisa junto com o marceneiro – ou provocado pelas relações internas das linhas, a traçar campos de força, ou pelas sugestões que a cor vai lhe trazendo.


Assim como Ben Nicholson, que começava a desenhar numa folha em que colocara alguns rabiscos a esmo, Sérgio começa a pintar na tela pintada, isto é, na qual ele colocou uma cor de fundo. Quando trabalha sobre essa primeira cor, o que o pintor comanda é um processo de revelação – uma cor pede a vizinha, nega a anterior, se impõe ou desaparece. É como se o pintor abrisse espaço para uma pintura pré-existente, e que deve ser descoberta. É essa aparente desordem inicial que deflagra o processo de associação de emoções , e é a partir dessas relações criadas internamente que vai surgindo a pintura.


Essas relações se estabelecem também de quadro para quadro, pois Sérgio faz vários trabalhos ao mesmo tempo, e uma questão surgida numa tela pode levar uma outra para nova direção. Esse processo corresponde ao tempo de maturação da pintura, pois ela não é o resultado de um impulso simples, natural. O artista respeita uma força que é dela, um tempo que é dela, e espera que o resultado obtido encontre eco em sua emoção e sua mente.


Ao alterar o contorno regular de suas telas, Sérgio Fingermann promoveu a ampliação dos recortes simplificados de casas presentes em pinturas de 1983. O suporte dos trabalhos resulta do acasalamento de triângulos com retângulos, trapézios com quadrados. Mas essa nova conformação exterior nada deve a um ímpeto concretista de repassar para fora da tela os sólidos geométricos que historicamente já a habitaram. O que ele faz com as peças desse grande quebra-cabeças, é alargar e verticalizar de forma lúdica o seu espaço de criação, colocando-o na dimensão física do gesto. Os limites superiores de suas telas de 1,90 m de altura são facilmente alcançáveis pela mão que ergue o pincel. O diálogo com a pintura agora é direto, corpo a corpo. Essas grandes zonas facetadas transformaram a pintura num lugar para estar, e o pintor, que já manifestara o desejo de entrar fisicamente na pintura, ao se retratar numa tela de 1986 pintando o céu paulistano por trás da silhueta do Banco do Estado, aí se sente à vontade.


De dentro, ele vê melhor o que está fora. Suas visões simbólicas ganharam o espaço exterior, tornaram-se mais abstratas. Essa nova paisagem cênica oferece zonas de cor mais amplas que as definidas por cortinados, bules, peixes, gatos, cadeiras, formas que ele incorporara em papel japonês aquarelado às suas gravuras de dois anos atrás.


É como se Sérgio Fingermann tivesse aceito o convite da escada que ele encostou ao muro, em uma de suas gravuras, e tivesse subido. Lá de cima o que se descortina no seu novo horizonte são fachadas com arcos, portas e frestas, pisos e firmamentos, uma arquitetura onírica que define o palco para sua nova representação pictórica.


Essas formas surgem no interior das telas como arcabouços da pintura e ele trabalha no sentido de encontrar a plasticidade da estrutura interna, lidando com a dualidade construção/emoção. A geometria, quando existe, não é dogmática, não disciplina a cor, ao contrário, o artista se compraz em dar a ela uma função dinâmica de contraponto. Do mesmo modo, os objetos de outrora não tinham a corporeidade cubista, mas levitavam como nos devaneios de Chagall. Não havia peso nos objetos de seu inventário emotivo, como não há peso nos seus sólidos geométricos de agora – ambos têm a qualidade do irreal. As suas construções nada têm de estáticas, ao contrário, há um movimento que se inicia internamente, anunciado pelas linhas de fuga, e que se completa fora das telas. Há um vazamento das formas que nos faz lembrar do recurso barroco de um movimento que não é visto, mas intuído, captado pelo intelecto.


Está presente no trabalho de Sérgio Fingermann, e de modo reflexivo, a citação – da pintura metafísica de De Chirico ao cubismo de Braque, do construtivismo abstrato de Mondrian ao grafismo requintado de Ben Nicholson. Sérgio Fingermann se refere intelectualmente à pintura e reconhece que os pintores que ele admira “formam a base das minhas emoções”.


Um de seus trabalhos recentes talvez forneça a chave para a compreensão do espírito do pintor frente à pintura. Nele há um contraponto entre as duas laterais. À direita uma fachada em ocre, majestosa e regular. À esquerda um amontoado caótico de formas geométricas se acotovelam num equilíbrio instável. Entre os dois extremos, o céu de um azul metafísico, ironicamente imparcial.


Nessa colocação de estranhezas formais, de opostos, há um jogo abstrato sendo proposto para a pintura. Com seu trabalho atual, Sérgio Fingermann mostra que fez seu percurso sem perdas, mas com incorporações de diferentes experiências – e é por isso que os seus óleos e acrílicos conservam as sutilezas da aquarela, as telas não expulsaram de todo o grafismo da mão treinada na gravura.


O artista, com lucidez, lembra que “as idéias desenham por detrás das imagens”, e essas telas de agora são requintadas expressões de idéias poéticas.


Vera d’Horta
Agosto-1988