Galeria Revista de Arte - Carlos Scarinci (1992)
Nem a pintura é o verbete (visual) da palavra, nem esta é a etiqueta enunciadora do quadro. Disjunção. Este parece ser o paradigma (se o que disjunta pode ser paradigma da pintura que Sergio Fingermann expõe na Galeria São Paulo e no Museu de Arte do Rio de Janeiro, em agosto.
Os grandes quadros parecem nascer da justaposição ocasional de fragmentos, não se sabe bem do que, a não ser que se olhe ou recorde as pinturas e gravuras anteriores do artista. É assim que se pode perceber a deslocação da representação do objeto para o registro do pensamento, senão, mais primitivo, da sensação.
Densidades opalinas de cor fazem o espaço. Com gestos improvisados, Fingermann reconstitui a experiência de um mundo. Lembrança de objetos de uso pessoais, de íntima convivência. Se chega a ouvir a conversação tranqüila da hora do chá, dentro do ruído e agitação urbanas. O sobe e desce das edificações perpendiculares, estabilizando-se nas horizontais que olham a vertigem do trânsito e dos transeuntes. O espaço se alarga na tranqüilidade dos parques, paisagens, passagem para um cosmos, infinito na dispersão. O que era para ser espaço, assim, se faz tempo. E, enquanto o olhar recolhe a arqueologia de um cotidiano que se estende para além do dia, a pintura se faz música, se substancia em consistências transparentes, luminosas ou sombrias. Dentro, às vezes, Fingermann deixa reconhecer objetos, seres, mas tão gráficos como palavras que perderam o significado, denotação e mais as variáveis conotações para assumir seu puro ser gráfico, como se a representação abandonasse o que representa, para tornar-se pintura pura, essencial.
Um coelho não é um coelho. Uma caixa não contém segredos nem griffes. São apenas graphos que se espalham no teatro do quadro, como atores numa peça sem prévio texto, em que o pintor e o espectador se confundem, ou melhor, se deixam perder em sonhos e projetos. Tudo aí são ressonâncias, repercussões de formas e significados que se desconstroem até além do suporte. As bordas, o bastidor, o subjacente, não conseguem mais conter o que dentro delas se passa, nem represar o jogo do tempo, seu puro fluir.
Nos nomes, nas formas, no movimento dos traços r manchas, realidades apenas emergem , mal rasgam a densidade da luz e a pele do espaço, deixando rodopiar a imediata intimidade das coisas, o torvelinho da cidade, a tranqüilidade do parque, a presença da montanha, a lembrança que Sergio Fingermann nutre de longes deuses antigos.
Carlos Scarinci
Galeria Revista de Arte – nº30 (1992)
