Figuras em contraponto - Manuel da Costa Pinto
“Toda arte aspira constantemente à condição da música”, reza a célebre frase de Walter Pater, como a dizer: toda arte tende ao absoluto, a uma linguagem que se despede da representação e das funções comunicativas, à elisão do objeto em proveito de uma autonomia radical. Poesia pura, pintura abstrata: música.
O que dizer, porém, de uma série de telas que se articulam explicitamente em torno do tema da música e que, no entanto, assinalam uma guinada do artista para uma pintura figurativa? Elogios ao silêncio propõe esse enigma – um enigma interior à trajetória de Sergio Fingermann, mas que dela transborda.
Não seria enigma se Fingermann tivesse sido, desde sempre, um artífice da figuração. Sua produção anterior, todavia, tende para uma submersão das coisas num plano pictórico na qual só há vestígios de coisas, que sobrevivem como idéias: formas arquitetônicas, diagramas, silhuetas, palavras transformadas em ícones – enfim, notas musicais sobre a pauta de uma avassaladora massa sonora que tudo arrasta em turbilhão.
A música de Elogios ao silêncio é de outra ordem. As telas figuram elementos performáticos: instrumentistas, cenas de baile, passos de dança, o regente cuja batuta se confunde com o pincel do artista diante do cavalete. Seria uma tentativa de dar corpo à presença incorpórea do som, ou de recuperar o desconcerto de imagens que aspiram à condição de música inserindo-as numa narrativa?
Ocorre que essas presenças pairam numa paisagem mental. As “personagens” de Fingermann evoluem sobre tabuleiros pictóricos, espaços tornados abstratos pela composição de um xadrez de texturas, igualando-se a esferas, cubos e cones que, presentes em outras telas, apontam para uma existência resistente à corrupção do tempo.
E, por aí, reencontramos aquela pureza essencial da música: as figuras de Fingermann não mimetizam situações conexas ao exercício musical, mas são gestos prenhes de uma musicalidade que as define como matéria em estado de pura reverberação.
Aqui, seria o caso de lembrar que a noção de mimesis, antes se vulgarizar como imitatio, “imitação”, esteve associada à dança e à música, constituindo um fenômeno de expressão: em suas origens, a mimesis “antes põe do que expõe; é apresentação e não, basicamente, representação” (Luiz Costa Lima). Ou seja, antes de expressar o fosso incomensurável que se abre entre as palavras e as coisas, entre os signos e seus referentes, o gesto de mimetizar corresponde a uma coreografia de cores e formas, a uma razão sem palavra, música que remete apenas à sua própria harmonia – designando, por contraste, a disformidade, o magma indiferenciado do qual surge.
Nesse sentido, a mímesis da música operada por Fingermann em Elogios ao silêncio não equivale a uma representação; constitui, antes, uma irrupção na qual as linguagens confluem – conforme sugerido num dos textos que acompanham essa produção:
“A palavra é limite, é fronteira do silêncio, limite do caos.
Silêncio é privação?
A palavra, o som, as cores e formas dão limites ao silêncio.
O que não foi dito pode ser esquecido?”
Essa irrupção comum, que enlaça palavra e som, cor e forma, também se faz presença na citação do poema “A fonte romana”, de C. F. Meyer – que para Heidegger descreve o próprio processo de desvelamento do ser dos entes pela arte: “Eleva-se o jato de água e, caindo, enche/ por inteiro o redondo da taça de mármore,/ e a taça, enchendo-se, extravasa/ sobre o fundo de uma segunda taça;/ e a segunda, tomando água a mais,/ dá à terceira, em ondas, o seu jorro,/ e cada uma ao mesmo tempo toma e dá/ e jorra e repousa.”
A fonte é tema recorrente na pintura de Fingermann, como a reiterar o comentário sobre aquilo que jorra de sua própria superfície numa deriva constante entre o telúrico e o sublime: figuras longinquamente circenses, saltimbancos, dançarinos em roda, mas também um luar que satura a superfície e funde o olhar contemplativo na paisagem muda.
Da mesma maneira, são recorrentes os desenhos de ogivas dispostas em seqüência, sugerindo arcos melódico-pictóricos que se intercalam em contraponto e articulam o diálogo entre as telas. Esta, talvez, a aspiração Fingermann: compor, com essa seqüência rapsódica de cenas e objetos, um poema sinfônico sobre a música silenciosa das formas.
Manuel da Costa Pinto
