Do arquivo para o sonho - Maria Isabel Branco Ribeiro

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Pintura e gravura têm procedimentos próprios e apresentam particularidades enquanto linguagens. Quando um mesmo artista se dedica às duas atividades, embora se manifestem segundo seu caráter, é difícil estabelecer um limite rigoroso que as restrinja a setores incomunicáveis.


É o caso de Sergio Fingermann, que define seu trabalho como o de um pintor que faz gravura e o de um gravador que pinta.


Observando sua obra, verifica-se que o exercício da pintura vem trazendo soluções formais para suas gravuras, bem como alterações no modo de encarar seus procedimentos tradicionais. Vide as interferências realizadas com papel colorido durante a impressão, expostas em 1986.


A contrapartida também existe. É visível que as etapas metódicas e o contato íntimo com os materiais na prática da gravura tenham intensificado o gosto pelo prazer manual. O prazer artesanal e a construção paulatina da imagem aparecem claramente em sua pintura.
O artista afirma trabalhar com evocações, criando cenários não de sonho, mas para o sonho. Constrói essas cenas ora sobrepondo formas geométricas e imagens, ora abrindo espaço para o vazio, por meio da articulação de elementos aparentemente dispersos.


Este uso da imagem na pintura é uma herança de sue ofício de gravador. É como se possuísse uma coleção de imagens/matrizes. Lá seleciona as que possam lhe auxiliar a construir determinada situação. Este acervo visual conta com itens que podem ser rastreados até em meados dos anos 70. São apreensões da visualidade cotidiana; apropriações propostas por sistemas de representação; ou ainda são geradas dentro do próprio trabalho. São imagens com escala própria, independente das outras com que se relacionam.


O arquivo é composto de estrelas, bules, cadeiras, prédios, escadas, peixes, vultos humanos, janelas, vigas, arcos, pontes. Há pequenas figuras geométricas. Há também grandes planos que se deslocam na superfície da obra, como painéis móveis de palco.


O que se diz das imagens tem um correlato quanto a cor. Ela é sóbria e construída aos poucos. As marcas do pincel são deixadas visíveis e permitem a vibração de cores que apenas parcialmente encobrem.


Em suas pinturas recentes que o artista expõe na Galeria Luiza Strina, a partir de 27 de setembro, Sergio Fingermann leva adiante estas questões e introduz outras. O abandono do retângulo da tela, a opção pelo recorte das bordas e pelos painéis acoplados evidenciam uma maior preocupação compositiva e nova referência ao cenográfico.


O interesse pelo cenário também está presente na apropriação/citação que faz de soluções apresentadas por artistas em cujo trabalho emerge o problema do espaço. É flagrante, principalmente, quando alude aos esquemas tradicionais de representação da paisagem e da arquitetura.


Na verdade, ao incorporar estes recursos, Fingermann está sendo plenamente coerente ao processo de trabalho que vem desenvolvendo. Recupera imagens apresentadas pelo Museu Imaginário, segue transmutando-as sucessivamente, até integrá-las em seu vocabulário visual. O resultado é a ampliação de seu arquivo de imagens, fazendo que as novas convivam com as mais antigas sem ruídos estridentes.


Assim sendo, faz aparecer a sugestão da murada silenciosa de um convento (como que concebido por Cimabue) envolto pela luz dourada dos bizantinos, onde antes havia a solidão de uma noite paulistana. Através do tratamento cuidadoso confere, a uma montanha vinda de um afresco de Giotto, a mesma intimidade que tem com as árvores do Parque do Ibirapuera. E propõe uma dúvida quando apresenta uma praça azul e desolada: qual será a sua origem – uma homenagem a De Chirico ou o registro das mutações que seu desenho impôs às arcadas do Museu do Ipiranga? Talvez sejam ambos, ou talvez seja uma peça de coleção, que abrigue em si outra coleção.


Guia das Artes nº 10 (Edição Internacional)