A Exposição mais madura do artista - Olívio Tavares de Araújo
A trajetória como pintor de Sergio Fingermann tem sido um edifício construído tijolo por tijolo, com paciência e até certo tipo de humildade. Humildade que não te a ver com qualquer timidez profissional nem com a definição de metas pouco ambiciosas na pintura. É a humildade inteligente (mas penosa) de quem não acredita em “saques”, em “lobbys”, em saltos bruscos ou cenas de efeito: acredita no trabalho.
Assim, mesmo sua passagem de uma arte figurativa e intimista para a pintura abstrata de grandes dimensões, ocorrida há uns três anos, não teve marcas de traumatismo ou ruptura. Foi o desenvolvimento harmonioso e coerente da busca da “essencialidade” da pintura, dos elementos específicos da obra, de seu crescimento interno, que a torna independente das referências à realidade exterior. Foi um passo na direção da pintura absoluta, desafio maior da modernidade desde Kandinsky, e ainda inesgotado.
Chega-se agora, à mais madura, mais completa e convincente exposição de Sergio Fingermann – que aqui se mostra aos 39 anos, um “jovem mestre”. No sentido de revelar a essencialidade da pintura, ela é também ainda mais generosa que a anterior, porque mostra ao espectador como essa pintura se processa. A linguagem expressiva vem do fundo para a frente, por superposições, por invenções cumulativas, através de manchas, formas e cores que largam na tela seus próprios rastros. Não há nenhum truque ou efeito por detrás.
O que, de qualquer modo, não impede que o pintor jogue com certas ambigüidades para produzir uma poesia mais intensa. De um lado, utiliza pequenas inscrições figurativas, que no contexto abstrato, geram uma situação de estranheza. De outro, acrescenta certas palavras à pintura – Etna, Suez, Zeus, Giotto, Pittore, Verônica, Europa – que não têm absolutamente nenhuma relação com as imagens, nem funcionam apenas graficamente, como nas colagens cubistas. São pontos de ignição, provocativos do mistério.
O Estado de São Paulo
04 de agosto de 1992.
